Comia banana com farinha para não passar fome


A história de Zenildo Rodrigues tem a marca dos que têm fome de superação. Ex-vendedor de sabonetes, pentes e cremes dentais na antiga feira de Água de Meninos, na cidade baixa, superou as adversidades para se transformar num dos mais bem-sucedidos comerciantes de Salvador.

À frente do Mercantil Rodrigues, um dos maiores supermercados da capital, localizado na Calçada, utiliza há 39 anos os mesmos princípios de negócios da época em que era ambulante. Homem de fé e fiel à família, Zenildo não consegue falar cinco minutos sem que exalte o nome da própria mãe ou do “glorioso” Santo Antônio. Do alto do seu escritório, de onde se pode avistar o império alimentício construído com seus próprios esforços, falou da sua inusitada trajetória de vida e da transação relâmpago que envolveu a venda do Mercantil ao grupo G. Barbosa, anunciada no início dessa semana.


Correio da Bahia – O que fez de um vendedor de sabão um empresário de sucesso?

ZENILDO RODRIGUES – Trabalho e fé. Trabalhava de sábado a sábado, de domingo a domingo. Para mim, não existia feriado. Com chuva ou sol, todos os dias estava na feira. Por outro lado, não seria nada sem a ajuda de Santo Antônio.

CB – O senhor nasceu na pobreza. Disso todo mundo sabe. Mas qual a origem de Zenildo Rodrigues? Onde começa sua trajetória?

ZR – Nasci de parteira, num pedacinho de terra em São Miguel das Matas, no interior baiano. Quando tinha 6 anos, perdi meu pai. Naquele dia, minha mãe se reuniu com os dez filhos e disse que o único homem que teria dali pra frente seriam seus próprios filhos. E ela cumpriu isso até a hora de sua morte.
CB – E como o senhor veio parar em Salvador?

ZR – Eu tinha 8 anos quando tive uma revelação do ‘‘glorioso’’ Santo Antônio. Ele nos disse que a gente poderia ir para uma cidade grande, que seríamos altos comerciantes e que receberíamos carretas e mais carretas na porta. Vendemos o gado e deixamos a terra. O gado tinha 55 cabeças. A terra, 22 tarefas. Viemos embora e chegamos aqui quase sem nada.
CB – Vocês moravam aonde?

ZR – No bairro do Pau Miúdo, numa casinha de dois quartos para dez filhos. Minha mãe dormia com minhas seis irmãs e os homens no outro quarto. A gente comia banana verde com farinha seca para não passar fome. Via um pedaço de bolo e não podia comer porque valia uma fortuna. Tudo o que eu mais queria era beber uma vitamina.

CB – Como nasceu o Zeni comerciante?

ZR - Minha mãe colocou minhas irmãs para trabalhar no ramo de farmácia. Depois, saiu procurando emprego para mim e para meu irmão. Ali, na Ladeira da Santa Cruz, entrou no armarinho de um português, o seu Manoel Alves. Foi ele que montou os tabuleiros pra gente na feira de Água de Meninos. Colocou uma dúzia de pasta de dente Kolip, outra dúzia de sabonete Gessy, e mais uma dúzia de pentes Flamengo. Eu gritava: “Três pentes por dez, sabonete é 18, pasta Kolip a 20 mil réis!”. Chegava ao final do dia esgotado e ia prestar contas do que vendi. Hoje, por ironia, seu Manoel tem uma lojinha de variedades aqui no supermercado.

CB – O dinheiro dava para alguma coisa?

ZR - Era tão pouco que, depois do trabalho, eu ia andando pra casa. Entregava o dinheiro nas mãos de minha mãe e ela comprava uma vara de pão de 500 gramas. O jantar estava garantido. Um pedaço de pão e um copinho de café para cada filho. No dia seguinte, estava de pé às 5h e ia andando para a feira. Minha mãe dizia: “Meu filho, cuidado para o sol não passar por cima de você”.

CB – Fale mais sobre a feira de Água de Meninos. O que fez o senhor se destacar entre os outros vendedores?

ZR – Além de trabalhar mais do que a maioria, conquistei a confiança dos clientes. É a mesma lógica de hoje. Os clientes do Mercantil Rodrigues são fiéis e confiam na gente.
CB – O pequeno comércio então foi crescendo…

ZR – Deus ajudou, largamos os tabuleiros e montamos uma barraquinha. Começamos com uma caixa de sabão. Na semana seguinte, tínhamos duas, depois três e por aí em diante. Já estávamos nos estabelecendo quando veio o fogo e destruiu tudo.
CB – O senhor se refere ao histórico incêndio de Água de Meninos, em 1964? Vocês perderam tudo mesmo?

ZR – Perdemos tudo. No dia seguinte só tinha brasa. Chegamos em casa chorando e minha mãe reuniu os filhos. O glorioso Santo Antônio se manifestou mais uma vez e disse: “Voltem para o trabalho que o destino de vocês está traçado”. Voltamos e o dono da saboaria foi muito generoso. Permitiu que utilizássemos o caminhão dele como comércio. Enquanto isso (choro), minha mãe ia pra fila pegar as cestas básicas do governo.

CB – Recuperados os prejuízos do incêndio, como se deu então o grande salto? O que o levou a dono desse império chamado Mercantil Rodrigues?

ZR – Até então, eu dividia o meu tempo entre o trabalho e a escola. Era o melhor aluno da turma, mas queria me dedicar só ao comércio. Um belo dia, tive uma conversa séria com minha mãe. Disse (choro): “Mãe, não tenho mais condições de estudar. Deixa eu seguir a minha carreira no comércio que eu não vou decepcionar a senhora”. Ela respondeu: “Meu filho, eu queria que você estudasse advocacia, para ser o melhor advogado do Brasil”. Retruquei: “Mãe, o meu ramo é o comércio e vou poder retribuir tudo que a senhora me deu (choro)”.

CB - E retribuiu…

ZR – Pude fazer um pouco por ela. Comecei a vender no atacado e as coisas melhoraram bastante. Compramos um apartamento num conjunto do IAPI e depois uma casa no mesmo bairro. Daí me ofereceram um outro apartamento na Pituba. Decorei, comprei o carro mais luxuoso da época e contratei um motorista. Depois, me ofereceram um pedaço de terra numa roça. De início, recusei. Quando corri a terra, o que eu encontrei? Uma igreja do milagre de Santo Antônio dentro do terreno. Era o lugar que minha mãe procurava. Desde então, a família inteira sai todos os anos em romaria até a capela.

CB – E esse espaço aqui na Calçada, o senhor adquiriu quando?

ZR – Isso aqui era uma fábrica de pneus imensa. Eu tinha uma quimera logo ali na frente, bem perto. Passava por aqui e o proprietário saía com uma Mercedez bonita. Eu pensava: “Puxa, Deus. Se eu puder ainda compro aquele espaço”. Um belo dia vi escrito na frente: “Vende-se”. Perguntei ao corretor e ele me disse o valor: R$1,2 milhão. Nem sabia que dinheiro era esse na época. Mandei chamar o dono. Disse a ele que não valia mais de R$300 mil e que o próximo dono seria eu. Ele deu um murro na minha mesa e perguntou se eu estava de brincadeira. Foi embora soltando os cachorros. Sabe o que eu fiz? Peguei uma escada, tirei a placa e espalhei no bairro inteiro que eu tinha comprado o casarão. Meses depois, o dono mandou me chamar. Pediu R$600 mil. Disse a ele que só tinha os R$300. Baixou a proposta para R$400. Mantive o valor inicial. Ele pediu que eu me retirasse de sua sala, chamando-me de moleque. Eu me neguei a sair. Ele foi lá dentro, pegou a escritura e mandou assinar. Paguei os R$300 em 30 meses.

CB – Para aprender a negociar dessa forma, fala-se que o senhor recebeu importantes lições de Mamede Paes Mendonça, dono da maior rede de supermercados que já existiu na Bahia. Essa história é verdadeira?

ZR – É. Certa vez, isso eu tinha uns 10 anos, fui comprar duas caixas de vela na mão de seu Mamede, no Comércio. Foi quando ele me chamou em seu escritório. “Venha aprender a negociar comigo”. Chegou um rapaz para vender um imóvel. Seu Mamede fez uma oferta, mas o corretor disse que outra pessoa tinha dado um preço melhor. Muito sabiamente, seu Mamede respondeu: “Olha, meu filho. Se você achou mais, pode vender. Se você não vender, volte amanhã e me procure. Agora, eu tô lhe dando esse preço hoje. Amanhã, eu não sei”. Passou o tempo e eu fiquei curioso para saber o que aconteceu. Encontrei seu Mamede na loja e perguntei qual tinha sido o resultado. Ele disse que o imóvel agora era dele e por um preço bem menor do que o inicial.

CB – Que outras lições você aprendeu naquele tempo e utiliza até hoje nos seus negócios?

ZR – Todos os dias, quando eu descia pra feira, minha mãe dava o melhor conselho que um negociante pode ouvir(choro). Ela dizia: “Meu filho, nunca se misture com quem não presta. Se misture com gente igual ou melhor que você”. Todos os empresários deveriam seguir essa máxima. Aquilo até hoje fica martelando na minha cabeça. Nunca decepcionaria minha mãe e, por isso, trato meus negócios da maneira mais correta possível.
CB – Que tipo de conselho o senhor daria para quem nesse momento está vendendo quiabo numa das feiras livres de Salvador?

ZR – Tem que saber comprar e saber vender. Se fizer isso com trabalho e honestidade, fatalmente vai crescer.

CB – Ainda hoje o senhor encontra com as pessoas daquele tempo? Aquelas que viviam da feira de Água de Meninos?

ZR – Há alguns meses encontrei com um comerciante dono de um açougue. Era ele que me protegia quando tinha briga na feira. Naquela época, o soldado João e o cabo Nelson faziam o que queriam em Água de Meninos. Era aquela correria quando eles apareciam. Eu ficava na porta do açougue vendendo meu sabão. Quando tinha qualquer confusão, o açougueiro me jogava para dentro do estabelecimento e mandava eu me esconder atrás do balcão. Por esses dias nos encontramos num elevador. Nos reconhecemos e choramos igual a dois meninos pequenos.

CB – O senhor havia prometido abrir uma filial até meados de 2008. Por que a decisão de vender o supermercado ao grupo G. Barbosa?

ZR - Estava num momento da minha vida que precisava parar, analisar, pensar. Aí decidi.
CB – Então o senhor não é mais dono do Mercantil Rodrigues. É um simples funcionário?

ZR – Não sou um funcionário como outro qualquer. Estarei à frente dos negócios junto com meus novos sócios. É como num namoro. Só acaba quando termina o amor. Vou continuar no Mercantil até o amor continuar.

CB – Qual o valor da transação?

ZR – O que posso afirmar é que foi um negócio bom para os dois.
CB – Soube que o senhor planeja escrever uma autobiografia. Em quantos capítulos a sua saga será escrita?

ZR – Em muitos. Desde os primeiros dias em São Miguel das Matas e a vida difícil em Água de Meninos até a venda desse castelo que construí com os meus próprios esforços. Eu quero ensinar um pouquinho do que aprendi. Até o segundo semestre de 2008, lanço o livro.

CB – Depois de receber mais um prêmio, o de Cidadão Baiano, com que olhos o senhor enxerga o passado?

ZR – Guardo o meu passado com muito carinho. É ele que me faz encarar o presente.

CB – E o futuro, agora com a venda do estabelecimento?

ZR – O futuro deixo nas mãos de Santo Antônio.

Fonte = Alexandre Lyrio Aqui Salvador

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