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	<title>Opinião de Valor &#187; Crônicas</title>
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		<title>Três Reais</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Aug 2007 21:21:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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O táxi que me levava ao aeroporto era dirigido pela tartaruga em pessoa. Não que o motorista fosse lento. Não era. Apelidei-o de &#8216;tartaruga&#8217; só por ser enrugado e vivido. 
E também por lembrar a tartaruga da fábula de Esopo, &#8220;A lebre e a tartaruga&#8221;, recontada por La Fontaine, onde não é a autoconfiança que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--adsense--><br />
O táxi que me levava ao aeroporto era dirigido pela tartaruga em pessoa. Não que o motorista fosse lento. Não era. Apelidei-o de &#8216;tartaruga&#8217; só por ser enrugado e vivido. </p>
<p>E também por lembrar a tartaruga da fábula de Esopo, &#8220;A lebre e a tartaruga&#8221;, recontada por La Fontaine, onde não é a autoconfiança que vence, mas a perseverança que vem do reconhecimento das próprias limitações. O motorista era assim. Velho e calejado de<br />
erros que não se preocupava em esconder.</p>
<p>De vez em quando faz bem encontrar alguém consciente de suas próprias falhas, de seus limites, e que não acredita tanto assim em si mesmo. Não, você não vai ouvir de mim a frase &#8220;acredite em si mesmo&#8221;. Acreditar mesmo, só em Deus, que não pode falhar.<br />
<span id="more-15"></span><br />
<!--adsense--><br />
Todas as vezes que me empolguei e acreditei em mim mesmo descobri depois que eu estava mentindo para mim com o objetivo de me manipular. Acha estranho? Quando você se vir frente a frente consigo mesmo vai entender.</p>
<p>Depois de uma certa idade a gente começa a aprender o que é o ser humano &#8212; e mais particularmente o &#8216;eu humano&#8217;. Começa a entender que covardia, miopia, orgulho e mentira são acessórios que vêm de fábrica, prontos para usar. Qualquer pessoa tem potencial para<br />
falhar. </p>
<p>O problema é que tentamos nos convencer de que não falhamos e &#8212; já que em todo crime sobra um corpo &#8212; passamos a nos explicar e a procurar alguém para culpar, na tentativa de tirarmos o corpo fora. </p>
<p>Quando vira hábito passamos a vida procurando alguém pior para podermos nos comparar. Então o que bebe explica que não toma drogas, o viciado avisa que não rouba e o ladrão diz que não mata. Vai me dizer que você nunca se explicou assim?</p>
<p>Um pouco antes de entrar no táxi eu tinha trocado alguns minutos de prosa com alguém com o mesmo número de anos daquele motorista, mas que enxergava um mundo onde todos erravam, menos ele. Não que o motorista pensasse o contrário ou achasse todo mundo bom, menos<br />
ele. Na verdade ele não nutria ilusões acerca de pessoa alguma, ele incluso.</p>
<p>Ex-policial, contou do tempo em que era mandado participar, à paisana, de manifestações. Seu papel era distribuir bombinhas para assustar os cavalos da polícia e instigar manifestantes pacíficos a ficarem violentos. O objetivo? Fazer o pau comer para justificar o cassetete amplo, geral e irrestrito. Evidentemente ele saía antes.</p>
<p>Em outras ocasiões infiltrava-se em reuniões de manifestantes para descobrir quem estava patrocinando, só para descobrir o próprio governo por trás da manifestação daquele bando de manipulados que acreditava fazer oposição.</p>
<p>E foi depois de confessar que cumpria ordens das mais imorais, que contou ter transportado, no dia anterior, um passageiro costumeiro naquele trajeto até o aeroporto. Quando o passageiro &#8212; um advogado do tipo lebre, apressado e autoconfiante &#8212; reclamou da corrupção,<br />
o calejado motorista retrucou que corruptos todos somos.</p>
<p>Do alto de seus 26 anos de idade, o pequeno doutor se defendeu afirmando ser incorruptível, de reputação ilibada, lisura profissional imaculada, lhaneza no trato, e mais uma dúzia de<br />
adjetivos que mais se atribui quem menos tem.</p>
<p>Antes que o motorista pudesse explicar por que considerava todos &#8212; inclusive a si próprio &#8212; corruptíveis, tinham chegado ao destino. Depois de receber pela corrida, o motorista entregou ao advogado um cartão com uma sugestão: </p>
<p>&#8211; Ao invés de chamar a Central de Rádio-Taxi, da próxima vez ligue direto para mim que vai economizar três reais, que é o que a central está levando nesta corrida. A gente faz o negócio por fora e a Central nem precisa saber.</p>
<p>&#8211; Ótimo, vou fazer isso &#8212; respondeu o advogado interessado &#8212; É sempre bom economizar algum.</p>
<p>&#8211; Bem, agora que já o convenci a chutar a Central para escanteio, como eu estava dizendo, que todos somos corruptos não resta dúvida. O que varia é o preço. No seu caso, três reais. Tá muito barato, doutor.</p>
<p>&#8212;<br />
Mario Persona <a href="http://www.mariopersona.com.br ">www.mariopersona.com.br </a>é escritor, palestrante e consultor de comunicação e marketing.</p>
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		<title>O avião pousou!</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jul 2007 14:17:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>

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por Mario Persona
Os destroços do avião da TAM ainda fumegam e os olhos dos  parentes das vítimas ainda lacrimejam enquanto vôo. O silêncio na cabine deste  outro Airbus não é normal. As pessoas se entreolham com expectativa e medo. Um  balanço inesperado, um cheiro não identificado, o som frisante de um  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"><font><br />
<em>por Mario Persona</em></font></p>
<p align="justify"><font>Os destroços do avião da TAM ainda fumegam e os olhos dos  parentes das vítimas ainda lacrimejam enquanto vôo. O silêncio na cabine deste  outro Airbus não é normal. As pessoas se entreolham com expectativa e medo. Um  balanço inesperado, um cheiro não identificado, o som frisante de um  refrigerante &#8212; tudo é visto com suspeição. </font></p>
<p align="justify"><font>Sob um sol de brigadeiro as rodas tocam uma pista de veludo e o  avião pousa em Brasília. Eu e os outros passageiros, mantidos em suspense até  ali, pousamos logo depois. Uma salva de palmas quebra o silêncio de quase duas  horas, seguida de uma coreografia de celulares saindo de bolsos e bolsas e de  uma frase geral: &#8220;O avião pousou!&#8221;.</font></p>
<p align="justify"><font>Nunca vi algo assim. Desde quando um piloto conseguir pousar no  melhor dos mundos tornou-se num feito equivalente a fazer um cego ver? O banal  virou motivo de júbilo e, na falta de ídolos confiáveis, adotamos o piloto como  herói. Ele, sim, temos certeza, está comandando alguma coisa, do lado de dentro,  bem ali, pertinho de todos.</font></p>
<p><span id="more-8"></span></p>
<p align="justify"><font>E o outro avião, quem foi que derrubou? Hoje, nos EUA, quando  alguém solta um traque a culpa vai para o Bin Laden. Virou padrão na mente das  pessoas traduzir assim qualquer &#8220;bum!&#8221; e uma explosão de vapor numa rua de Nova  Iorque foi a felicidade dos mendigos descalços da cidade. Uma foto da rua nos  jornais mostrava que as pessoas saíram correndo literalmente de dentro de seus  sapatos. Lá essa neura toda começou com um avião.</font></p>
<p align="justify"><font>Quando um avião cai a imaginação voa. Por enquanto, para o  brasileiro, o que derrubou o avião foi a falta de freios nas línguas e gestos de  algumas autoridades. E quem vai dizer que não? Não foi o que vimos na TV? É bom  que os comandantes que estão na cabine da cidade onde acabo de pousar fiquem  atentos a esse uníssono popular, porque os tempos são outros.</font></p>
<p align="justify"><font>Com a abundância do acesso à comunicação está ficando cada vez  mais difícil esconder ou enrolar. Até quem só viaja de jegue sabe qual vôo  atrasou, pois o boletim dos atrasos na TV é agora mais regular do que a previsão  do tempo. Ainda que a caixa-preta do avião revele uma voz em árabe gritando  &#8220;Jihad!&#8221;, muita gente vai ficar indecisa na hora de mudar de opinião. </font></p>
<p align="justify"><font>Ouvimos o que queremos ouvir e enxergamos o que queremos ver, e  quem trabalha com comunicação sabe disso. Quando adolescente, vi um comercial na  TV nos EUA que mostrava uma mala Samsonite caindo de um avião em vôo e atingindo  o solo em grande estilo, sem se espatifar ou danificar o que havia em seu  interior. A idéia era vender malas, mas o efeito foi contrário. A mala, derivada  de &#8220;Sansão&#8221; em inglês, podia ser forte, mas opinião pública era mais. As pessoas  associaram a marca a acidentes aéreos e pararam de comprar. Levou tempo e  dinheiro para frear e reverter essa impressão.</font></p>
<p align="justify"><font>Enquanto isso, aqui sob o Equador, parece que não foi só a  reversão do jato que travou. Desconfiômetros também mostraram estar &#8220;pinados&#8221;.  De que gênio terá sido a idéia de manter na agenda um evento de condecoração de  autoridades aeroviárias logo após um acidente aéreo? Quem merecia que se  contentasse em receber sua medalha pelo correio, de remetente anônimo, se  comprometendo a não tocar no assunto por no mínimo seis meses.</font></p>
<p align="justify"><font>Depois de horas de conexão, peguei meu segundo vôo e cheguei ao  destino são e salvo. Adivinhe. Sim, aplaudiram no segundo pouso também. Aplaudir  um piloto que pousa é como aplaudir um taxista que estaciona. É obrigação da  profissão. Mesmo assim agora são palmas merecidas, pois o cara está trabalhando  sob imensa pressão. No primeiro vôo o comandante saudou os passageiros e  acrescentou um <em>&#8220;desculpem pelo atraso, mas eu não podia decolar sem plano de  vôo&#8221;</em>. Alguém falhou, e não foi ele.</font></p>
<p align="justify"><font>O piloto seguinte, da conexão, também se desculpou: <em>&#8220;Não  pudemos sair no horário porque a aeronave não chegava. Vocês viram que eu estava  esperando com vocês, ali no embarque, né?&#8221;</em>. Sim, ele estava, eu vi, e me  solidarizo com um comandante que viaja dentro da mesma cabine que eu, separado  de um enorme posto de gasolina por apenas alguns milímetros de alumínio.  Comandante que viaja junto é comandante solidário.</font></p>
<p align="justify"><font>Se me perguntarem como sair do estol em que entrou aviação  comercial, digo que não sei. Mas arrisco um palpite com base no que senti nas  mais de duzentas vezes que pousei ou decolei em Congonhas, desde o tempo dos  gloriosos aviões Electra da ponte aérea. Acho que isso me dá autoridade  suficiente para sugerir que aquela pista, boiando num mar de prédios, mude de  nome. Enquanto não decidem se ela deve ser fechada, limitada ou engruvinhada,  rebatizem o lugar nos mapas e cartas para os pilotos saberem o que irão  encontrar. Troquem &#8220;Aeroporto&#8221; por &#8220;Porta-Aviões&#8221;.</font></p>
<p>&#8220;Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em seus livros e suas palestras. Veja em <a href="http://www.mariopersona.com.br">www.mariopersona.com.br</a>&#8221;</p>
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